O que a arte revela sobre o consumo de luxo contemporâneo
A relação entre arte, cultura e consumo foi tema central de uma live da ESPM Panamericana, promovida por meio do programa Unlocked Panamericana. Conduzido pelo professor Henrique Rien, Coordenador dos cursos da área de Artes Plásticas da ESPM Panamericana, o encontro mostrou como referências da história da arte ajudam a compreender por que determinados produtos e marcas passam a ser percebidos como valiosos na contemporaneidade.
Cultura e repertório como base do consumo
Um dos principais pontos da aula foi a introdução ao conceito de capital cultural, desenvolvido pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Segundo essa abordagem, o consumo, inclusive de produtos de luxo, não está ligado apenas ao poder aquisitivo. Para o autor, o consumo não depende apenas do poder aquisitivo. Também envolve a capacidade de reconhecer símbolos, interpretar referências e compartilhar determinados códigos culturais.
Nesse contexto, objetos e marcas também funcionam como formas de comunicação social. Ao adquirir um produto, o consumidor pode expressar pertencimento a determinados grupos e refletir referências culturais compartilhadas entre pessoas que reconhecem esses mesmos códigos.
Da técnica ao conceito: a virada do modernismo
Rien também destacou a importância dos movimentos modernistas do início do século XX na transformação dos critérios de valor na arte. Se antes o reconhecimento estava associado à técnica e à representação fiel da realidade, o modernismo promoveu uma ruptura ao colocar o conceito e a narrativa no centro da produção artística.
A partir desse momento, a arte deixa de ser apenas representação para se tornar uma forma de expressão de ideias e pensamentos. Essa mudança influencia diretamente a forma como o valor passa a ser percebido, uma lógica que, segundo o professor, é replicada no mercado de luxo até hoje.
Storytelling e valor simbólico no mercado de luxo
A transposição desses conceitos para o consumo contemporâneo aparece na valorização do storytelling. Marcas de luxo deixam de depender exclusivamente de atributos materiais e passam a construir narrativas capazes de agregar significado aos produtos e fortalecer sua percepção de valor.
Esse movimento também dialoga com a crítica ao excesso de ornamentação, que passa a ser visto como superficial. Em contrapartida, ganha espaço uma estética mais minimalista, associada à sofisticação e ao domínio de repertório cultural.
Assim, o valor deixa de estar no aspecto visível e passa a residir na história por trás do objeto, acessível apenas a quem possui o repertório necessário para compreendê-la.
O deslocamento do objeto: da arte ao produto
Outro destaque da aula foi a análise da obra “A Fonte”, de Marcel Duchamp, considerada um marco na redefinição do que pode ser entendido como arte. Ao retirar um objeto de seu contexto utilitário e inseri-lo no campo artístico, Duchamp mostra como o contexto e o significado podem transformar a percepção de valor.
Esse princípio é comparado a estratégias adotadas por marcas de luxo, que ressignificam itens comuns ao inseri-los em novos contextos e atribuir a eles uma narrativa. O resultado é a construção de valor por meio do significado, e não apenas da materialidade.
Experiência e pertencimento como novos ativos
Além do produto, Rien enfatizou a importância da experiência no consumo de luxo. Influenciadas por conceitos como instalações artísticas e arte relacional, marcas passaram a investir em ambientes que proporcionam interação e imersão.
As lojas deixam de ser apenas espaços de venda e passam a oferecer experiências sensoriais que reforçam o posicionamento da marca e ampliam o envolvimento do consumidor.
Nesse cenário, o cliente não apenas consome um objeto, mas passa a integrar um ecossistema simbólico, construindo uma relação mais profunda com a marca, através da Experiência de Fluxo Estético.
Luxo como construção cultural
Ao longo da live, Rien demonstrou que o consumo de luxo está diretamente ligado à construção social de valor. Mais do que preço ou exclusividade, ele depende de fatores como repertório, contexto e narrativa, que influenciam a forma como produtos e marcas são interpretados pelos consumidores.
A discussão também mostrou como arte e mercado se influenciam mutuamente. Enquanto a produção artística ajuda a moldar desejos e percepções, o consumo valida e reforça essas mesmas referências culturais.
Uma leitura contemporânea do consumo
Ao conectar movimentos artísticos históricos com práticas atuais do mercado, a live da ESPM Panamericana reforçou a importância de integrar cultura, criatividade e negócios na formação de profissionais.
Em um cenário cada vez mais orientado por significado e experiência, compreender essas relações torna-se essencial para profissionais que desejam atuar em áreas criativas e estratégicas.
Confira a programação do Unlocked Panamericana.
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