Antes de prosseguir na leitura deste texto, gostaria de propor um pequeno exercício. Feche os olhos e tente voltar até o ponto em que você se lembra de estar desenhando ou realizando alguma atividade artística. Se você é um daqueles que “desenha desde criança”, esse exercício não fará muito sentido. Portanto, pergunte a algum adulto próximo. Peça que ele faça essa experiência. E se você é das pessoas que parou de desenhar perto dos seus seis ou sete anos, quando ingressou na escola e precisava ficar por cinco ou seis horas sentado e focado em diversas disciplinas, talvez ache difícil voltar no tempo e encontrar esse lugar.
Em algum momento, durante o nosso processo educativo, a parte artística (salvo exceções, como já comentado) deixou de ser estimulada. Curiosamente, esse afastamento acontece justamente no período em que começamos a nos aproximar de um modelo de aprendizagem cada vez mais técnico e produtivo. A partir das décadas de 1980 e 1990, os computadores passaram a ocupar um espaço crescente no cotidiano. Já nos anos 2000 e, principalmente, a partir de 2010, celulares e smartphones transformaram profundamente nossa relação com as imagens e com a forma como observamos o mundo.
Aos poucos, experiências ligadas ao desenho, à construção manual e à observação perderam espaço para modelos de ensino cada vez mais focados em desempenho, produtividade e formação técnica. Somado a isso, o aumento do uso da tecnologia e das horas de tela fez com que a prática artística passasse a ocupar um lugar secundário, muitas vezes inexistente, ou entendida como algo recreativo e distante das chamadas profissões sérias.
Digitalização e fragmentação
Ao discutir as transformações produzidas pelas tecnologias, Lucia Santaella afirma no artigo Inteligência contínua: a sétima revolução cognitiva do sapiens que “a inteligência humana, desde o advento da escrita, vem crescendo fora da caixa craniana”. Para a autora, as tecnologias não funcionam apenas como ferramentas externas, mas como extensões dos próprios processos cognitivos. Em um contexto marcado pela “digitalização de tudo”, passamos a lidar com imagens e informações de forma cada vez mais rápida e fragmentada.
Ao mesmo tempo em que nunca produzimos e consumimos tantas imagens, passamos cada vez menos tempo observando. Produzir imagens rapidamente não significa, necessariamente, aprender a observar. Softwares permitem produzir mais, mais rápido, mas a experiência artística continua exigindo algo que nenhuma ferramenta entrega sozinha: atenção, repertório, elaboração e escolha.
“Para a sociedade de consumo, os caminhos de busca da sensibilidade são totalmente dispensáveis. Nem sequer fazem parte da realidade”, como aponta Fayga Perla Ostrower no livro Acasos e criação artística. Ao discutir a fragmentação do trabalho e da experiência contemporânea, o autor observa como muitas atividades passaram a ser repetitivas, aceleradas e desconectadas do entendimento do que realmente estão produzindo.
Fayga faleceu em 2001, antes da expansão das redes sociais, dos smartphones e das inteligências artificiais generativas. Ainda assim, suas reflexões sobre automatização e fragmentação do fazer seguem extremamente atuais. Em um contexto cada vez mais acelerado, desenho, pintura e escultura continuam exigindo algo raro: tempo, atenção e elaboração.
Importância das artes visuais
Por isso, talvez seja importante pensar o estudo das artes visuais para além das profissões tradicionalmente associadas à criação de imagens. As artes visuais desenvolvem interpretação, percepção espacial, leitura de relações e capacidade de síntese. São parte da construção de um ser humano capaz de observar, interpretar e elaborar.
Na medicina, por exemplo, universidades como Harvard e Yale desenvolveram programas que utilizam análise de obras de arte para aprimorar observação clínica e diagnóstico médico. No curso Training the Eye: Improving the Art of Physical Diagnosis, estudantes analisam pinturas e imagens complexas para desenvolver atenção aos detalhes, interpretação visual e observação de sinais sutis do corpo. A proposta parte de uma ideia simples: aprender a observar imagens também amplia a capacidade de perceber sinais clínicos e nuances do corpo.
Mesmo com o avanço das inteligências artificiais para geração de imagens, repertório visual e formação artística continuam fazendo diferença. Pesquisadores da área de IA e cognição, como Diogo Cortiz, apontam que ferramentas generativas não substituem pensamento visual, repertório e capacidade crítica. A qualidade da imagem continua diretamente ligada à qualidade do olhar de quem a produz.
Em minha experiência no ensino de arte, já atendi advogados, médicos, psicólogos, empresários das mais diversas áreas, entre outros. Em comum, muitos chegam à escola buscando inicialmente apenas uma atividade paralela ao trabalho, ou dando uma chance a algo ao qual nunca puderam se dedicar antes. Com o tempo, passam a desenvolver atenção, repertório visual e capacidade de elaboração que atravessam não apenas a prática artística, mas também suas formas de pensar e se relacionar com o mundo.
Mais do que formar artistas, as artes visuais participam da formação de seres humanos mais atentos e capazes de elaborar pensamento próprio.
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Artista visual multidisciplinar, mestra em Poéticas Visuais pela Unicamp, pós-graduada em Comunicação com o Mercado pela ESPM e bacharel em Artes Plásticas pela USJT. Sua pesquisa articula desenho, escultura e instalação, em diálogo com novas tecnologias e processos contemporâneos de criação.