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Entenda o que é escrita criativa

Publicado em 24 de março, 2026
Entenda o que é escrita criativa

Veja como é o processo de escrever sobre algo comum de forma não convencional

Para entender o que é escrita criativa é necessário compreender que esse é um recurso com o qual se constrói a estrutura de uma narrativa, mais conhecida por storytelling. Os dois conceitos andam juntos, mas não são a mesma coisa. Perceber essa diferença ajuda a entender por que tantas pessoas buscam cursos e oficinas para aprender a escrever de um jeito menos engessado.

“A escrita criativa é a base do storytelling, de alguma forma”, explica o cineasta Henrique Hennies, professor do curso de Animação da Panamericana Escola de Arte e Design, que faz parte do Grupo ESPM. “Eu preciso saber escrever para poder aplicar o storytelling de forma persuasiva”. Isso é uma maneira de trazer a criatividade para a escrita e de saber quais palavras usar para falar com seu público e o entreter. Para isso, é preciso dominar o básico: as palavras, o tom, a capacidade de descrever algo de um jeito que fuja do lugar-comum. Escrita criativa, portanto, é descrever objetos, pessoas, situações ou sentimentos de uma forma não convencional.

A mesma história tem várias versões

Para entender melhor a definição do professor, acompanhe este exemplo: duas pessoas estão juntas em um café e testemunham um assalto na rua. Uma chega em casa e conta os fatos secos: “Eu estava tomando café, vi um homem correndo atrás de um moleque de bicicleta, o moleque tinha roubado o celular do pedestre”.
A outra resolve começar pelo clima do dia, descreve a chuva fina, o aroma do café, o susto que interrompeu a conversa. As duas contaram a mesma história, mas a segunda usou recursos de escrita criativa para transportar o ouvinte para a cena.

O que diferencia uma versão da outra é a escolha. Quem faz uma escolha mais elaborada pode contar uma história que prenda a atenção e, a partir desse objetivo, despertar sentimentos semelhantes aos que sentiu quando testemunhou o furto. “A partir disso eu consigo pensar nos sentimentos que quero provocar”, explica Hennies. “É uma história de investigação? Um drama? Um romance? Como os elementos desse gênero vão se aplicar na história que você está contando?”.

O que e como você quer contar?

A partir daí, entram em cena as decisões sobre o que mostrar, o que esconder, o que inverter, ou seja, começar a história pelo final e depois apresentar o começo de tudo. Depende da entonação que o autor quer trazer ao texto e qual emoção quer causar.

Inverter o ponto de vista, aliás, é uma técnica da escrita criativa. Pense na mesma história do assalto. Quem conta pode ser a vítima, o ladrão ou até o garçom do café que viu tudo. Cada ângulo revela uma camada diferente da narrativa. “Você tem uma história. Como ser criativo em cima dela? Por que não pensar em pontos de vista diferentes?”, instiga o professor.

Escrever criativamente precisa de treino

Essa capacidade de fugir do óbvio não nasce do nada. Henrique conecta a escrita criativa ao estudo da criatividade como um todo. E criatividade, defende, não é dom, é treino. O primeiro passo é romper com as rotinas mentais, com os caminhos que a gente percorre todo dia sem pensar. “A gente faz, todo dia, o mesmo trajeto. É difícil pegar uma rota diferente. Mas é saindo da zona de conforto que brotam as ideias”.

Hennies cita a importância de recorrer às “constantes do pensamento”, que são os contrários – o yin-yang, o preto e o branco –, e as repetições. “Você pega um objeto que tem um sentido e aplica em outro lugar, criando um novo relacionamento. Você ressignifica”, explica, citando a obra Cabeça de Touro, do artista Pablo Picasso, que usou um selim de bicicleta para representar a cabeça de um touro em uma escultura, ou o desenho de abertura do livro O Pequeno Príncipe, que parece um chapéu, mas é uma cobra que engoliu um elefante.

Valorização do erro

Outro elemento fundamental, e dos mais difíceis de incorporar, é a valorização do erro. “Eu, como artista, a coisa mais difícil para mim é valorizar o erro”, admite o professor. As pessoas valorizam tanto o acerto que, quando erram, parece uma derrota. Mas o erro faz parte do processo criativo, e aprender com ele é observar o que deu certo mesmo no meio da falha, incorporar o desvio ao desenho, ao texto, à ideia original.

Hoje, num mundo dominado por fórmulas prontas e textos pasteurizados para agradar algoritmos de busca, a escrita criativa ganha uma função quase subversiva. Em certa medida, as fórmulas de SEO minaram a criatividade do texto. “Você lê um jornal digital e parece que é sempre a mesma estrutura”. É nesse cenário que a capacidade de escrever de forma original, de furar a bolha do lugar-comum, se transforma em diferencial.