O bom design cumpre sua missão quando comunica, organiza esteticamente e facilita a vida
Entender o que é design implica reconhecer que ele está em toda parte, mesmo quando não percebemos. Na embalagem que abrimos com facilidade, na placa que nos orienta dentro de um hospital, no aplicativo que usamos sem pensar duas vezes ou na sala de casa que nos faz sentir acolhidos. Por trás dessas experiências aparentemente simples, existe um trabalho complexo que equilibra três funções essenciais: comunicar algo, organizar esteticamente os elementos e garantir que tudo seja fácil de usar.
Para o designer Rodrigo Castanho, coordenador do curso Design UX/UI da Panamericana Escola de Artes e Design, que faz parte do Grupo ESPM, essa tríade é o que separa o design propriamente dito da arte ou de um conjunto de elementos visuais soltos sem propósito definido. “A arte pode se dar ao luxo da interpretação, da sensação e da expressão pura, e o design tem como obrigação comunicar alguma coisa”, resume.
O que um designer gráfico faz
Um designer não busca apenas o belo. Ele se preocupa com a estética de organização tipográfica, de cor, uso de formas e texturas para comunicar, e trabalha para que a usabilidade tenha a missão de facilitar o manuseio das coisas. O grande desafio, segundo Castanho, é encontrar o equilíbrio entre comunicação, estética e uso, sabendo que em alguns projetos pode ser necessário privilegiar mais um aspecto do que outro, mas sem deixar de lado algum elemento dessa tríade.
Fernanda Izar, designer, artista visual e professora do curso de Artes Plásticas da Panamericana, explica que o design “projeta uma resposta concreta a um problema real, com estética e valor reconhecido”, e essa resposta precisa ser criativa, funcional e esteticamente bem resolvida. No caso específico do design gráfico, a comunicação ganha um protagonismo ainda maior, já que essa área tem ligação direta com a transmissão de mensagens. Um bom design gráfico parece invisível para o observador, defende a especialista. Ela cita como exemplo um cartaz de divulgação de uma exposição: a pessoa vê, assimila imediatamente as informações sobre o evento, data, local e horário, sem imaginar o trabalho que o designer teve para chegar àquele resultado. “O bom design gráfico é quase despercebido, mas é o que evita que o mundo vire um caos”, afirma.
O design pede conhecimentos complexos
Para chegar a esse nível de eficiência, é necessário dominar conhecimentos complexos como hierarquia visual, teoria da Gestalt, psicologia das cores, tipografia e contraste, entre outros aspectos pensados para direcionar o olhar do usuário exatamente para onde precisa ir. Os ocidentais leem esquerda para a direita, de cima para baixo e também na diagonal a partir da esquerda. Em um cartaz, tudo isso tem que ser pensado para conduzir o olhar de quem o vê e também para o entendimento da mensagem.
Portanto, nada é por acaso na comunicação visual que não percebemos cotidianamente, e isso desconstrói o mito de que toda criação é feita majoritariamente de inspiração. Fernanda cita o fotógrafo e pintor americano Chuck Close: “Inspiração é para amadores. O resto de nós apenas se levanta e começa a trabalhar”. A frase pode parecer dura, mas design é trabalho, estudo, teoria aplicada e repertório construído ao longo do tempo, seja qual for a área.
O design de interiores ocupa todos os espaços
No universo do design de interiores, Beth Ferraz, coordenadora do curso de Design de Interiores da Panamericana, explica que o trabalho é voltado à organização dos espaços que habitamos, trabalhamos e frequentamos. Por isso, existe a profissão de designer de interiores, que não é igual ao ofício do decorador.
“Antigamente, você tinha uma sala que você decorava. Hoje você projeta esse espaço, planeja e organiza de acordo com suas necessidades”. A decoração continua existindo e tem seu valor, mas o design de interiores vai além da escolha do mobiliário e de peças decorativas. Ele acompanhou a evolução do modo de vida das pessoas, no qual a casa deixou de ser um espaço para receber visitas e passou a mostrar a identidade e a personalidade dos moradores. “Hoje a moradia é funcional, é projetada para quem vive ali e não para o outro que vai lá de vez em quando”, explica.
O designer de interiores trabalha com forma, função, composições cromáticas, materialidade, texturas e iluminação, porque cada elemento vai se relacionar diretamente com o uso que as pessoas fazem dos espaços. Um projeto corporativo contempla a funcionalidade do mobiliário, o conforto acústico e térmico, a iluminação adequada ao trabalho, da mesma maneira que um supermercado é pensado para melhorar a experiência de compra.
Além da comunicação visual das gôndolas, que fica sob responsabilidade do designer gráfico, o planejamento necessita do designer de interiores para pensar no piso, na cor das paredes e na iluminação, entre outros fatores. Projetar um espaço, portanto, leva em conta o comportamento humano e os desejos e necessidades das pessoas, e propõe soluções.
No design, nada é por acaso
Quando ampliamos o olhar para outras aplicações do design, como a sinalização de ambientes comerciais, o design de embalagens ou a experiência do usuário em plataformas digitais, fica claro que os princípios são os mesmos. Exemplos cotidianos de como pequenas decisões de projeto impactam nossa vida vão do visual de um site planejado por um bom projeto de UX design e flechinhas indicando “abra aqui” em embalagens de lenço umedecido, à sinalização hospitalar com linhas coloridas no chão indicando caminhos para os consultórios ou pronto-socorro.
Fernanda, que é proprietária de um escritório especializado em design de embalagens, explica que a embalagem é a primeira apresentação de um produto antes da compra. É como se o fabricante dissesse que está investindo em um design lindo porque o produto é maravilhoso. “Então, se você não tem qualidade na embalagem, como vai dizer para o público que o seu produto também é de qualidade?”, questiona. Nesse sentido, a Apple se destacou – e fez escola – por vender produtos em embalagens esteticamente irretocáveis, que entregam itens de elevada qualidade, aumentando ainda mais a experiência do cliente.
Os especialistas alertam que o designer não pode pensar que seu papel é criar algo “diferentão”. Seja qual for o trabalho, é fundamental fazer pesquisa, entender personas, saber para quem ele está trabalhando e qual é a melhor maneira de comunicar.
Beth reforça essa ideia quando fala da importância de diferenciar os profissionais e valorizar o que cada um faz: “os grandes projetos dos grandes arquitetos não são feitos sozinhos. Eles chamam um profissional de luminotécnica, um paisagista, um designer de interiores. Aí é que você vê os bons resultados. Cada um no seu quadrado, fazendo bem-feito, o negócio fica bárbaro”.
Independentemente da área, o bom design cumpre sua missão quando comunica, organiza esteticamente e facilita a vida – tudo isso sem que as pessoas percebam o trabalho que deu.